11 de março de 2020

A força da torcida feminina no futebol paranaense

Em busca de igualdade e respeito, o movimento feminino tem ganhado cada vez mais força dentro dos estádios paranaenses.

A paixão pelos times e a luta pela igualdade dentro e fora de campo têm reunido torcedoras de várias gerações. Deixando a rivalidade de lado e dando as mãos em prol de ocupar seu lugar de direito no estádio.

Um dos principais desejos dos grupos femininos são o de influenciar e unir o maior número de torcedoras a fim de, um dia, o número de mulheres presentes não seja mais visto como minoria e que a presença delas no estádio seja, enfim, algo comum, trazendo assim a diminuição do machismo presente no esporte.

Atualmente, no Paraná, existem vários grupos femininos que se unem e se fazem presentes dentro dos estádios de futebol, entre eles, as Meninas da Tretis, Gurias do Couto e as Gralhas da Vila, que formam a “trinca de ferro” dentro dos estádios paranaenses.

Estádio: um espaço que é delas

Segundo, Thais Karam, apresentadora do canal Tretis, um canal voltado aos torcedores atleticanos, as mulheres não tem que conquistar nada em lugar nenhum e também nos estádios de futebol. Elas apenas precisam ocupar um lugar que é delas. “Nós mulheres não temos que conquistar um lugar no estádio, eu acho que temos que ocupar um espaço que é nosso. E que por algum motivo os homens vem dominando esse espaço desde muito tempo.” Comenta Thais.

Presentes no canal, Thais Karam, Rhaíssa Silva e Thays Kloss representam a força feminina na Arena da Baixada. Atleticanas desde infância, no áudio abaixo elas contam algumas dificuldades que encontram dentro e fora do estádio por conta do amor ao futebol e destacaram algumas ações que podem facilitar para que a mulher ocupe cada vez mais seu lugar de direito.

Hoje, o Club Athletico Paranaense tem cerca de 4,5 mil sócias, sendo 18% entre os 25 mil associados. Apesar da boa fase do time, algumas mulheres ainda não se sentem seguras dentro do estádio. Sendo sozinhas ou acompanhadas, deixam de frequentar por ter medo de sofrer alguma ofensa ou tentativa de assédio por parte dos torcedores.

O que fazer para que a mulher se sinta segura?

Para a apresentadora, estar em um ambiente culturalmente machista e se sentir à vontade é um desafio, mas que precisa ser enfrentado. “Um dos desafios que as mulheres enfrentam está em se sentir à vontade. Aí entramos em um campo de confiança, que vem de liberdade da mulher. Primeiramente, ela tem que se sentir à vontade em um estádio de futebol e, claro, isso conta com a colaboração de todos ao redor. É um desafio muito grande a mulher começar a entender que, SIM, o estádio é um lugar para elas.”, continua.

Lidando com o machismo no futebol

Olhares de reprovação, respostas com desprezo e até tentativas de assédios, são situações vividas por mulheres que frequentam os estádios.

Rhaíssa Silva é jornalista e explica, com sua visão, que o machismo é uma coisa a ser combatida sim nos estádios, e que as mulheres precisam cada vez mais serem incentivadas a acabar com esse rótulo. “Temos que lidar com o machismo todos os dias, infelizmente essa pauta já deveria ter sido combatida, mas precisamos bater mais nessa tecla, porque ainda vemos muito machismo presente dentro do futebol, não só nas quatro linhas.”, comenta. 

Existem diversas barreiras para que a mulher conquiste a igualdade. Perguntas do tipo: “Ah, me fala a escalação do seu time” ou “Aí, você sabe o que é um escanteio?” são coisas que já deveriam ter sido esquecidas e ainda não são, por conta do homem ainda ver a mulher no estádio como algo inusitado.

“Vamos em frente, se tiver que dar a mão, daremos e iremos juntas. Os movimentos femininos precisam crescer na arquibancada, temos que lembrar que nós não somos inimigas, que todas nós somos amigas e lutamos por um ideal, podemos não torcer todas para o mesmo time, podemos ter opiniões diversas, mas nós somos mulheres e devemos nos juntar e combater o machismo dentro dos estádios.” – Rhaíssa Silva

 

 

A representatividade da mulher no esporte

Mais do que apenas estar presente na arquibancada, as mulheres lutam também para estar presentes como profissionais esportivas.

No futebol brasileiro, hoje, apenas 14 mulheres são arbitras entre 450 homens aptos para arbitragem atual. Carlos Augusto Nogueira Junior, diretor da escola de árbitros da Federação Paulista de Futebol, afirma que a onda que impulsiona o futebol feminino atualmente – com a criação de um calendário e o fortalecimento das categorias de base – está atingindo a arbitragem feminina. – Fonte IstoÉ

O pulo do gato para aumentar o número das mulheres de preto foi a criação de uma sala exclusiva para elas. Com comunicação dirigida nas redes sociais, estrelada por profissionais que já atuam na área, a federação conseguiu algo inédito na história do curso: uma sala cheia de mulheres. “Historicamente, nós atraíamos apenas 4% ou 5% do total de vagas. Neste ano, preenchemos todas as 50″, explica Carlos. – Fonte IstoÉ

Para Thays Kloss, com essa representatividade a mulher passa a se ver mais presente no estádio. “Não só a arquibancada, mas dentro de campo com o time feminino, como arbitro, como técnica, inserir a mulher de verdade dentro do futebol para que elas possam estar presentes assim como os homens estão presentes.”, finaliza.

“É mostrando com ações que as mulheres não são diferentes: gostamos, apoiamos, sabemos e entendemos de futebol tanto quanto eles.”

Ouça mais do bate-papo que tivemos com as meninas da Tretis:




Gurias do Couto: “Que possamos não só torcer como mulheres, como também torcer para mulheres.”

Desde os 16 anos, Natalia Oliveira, torcedora do Coritiba Foot Ball Club, tinha o desejo de frequentar o estádio sozinha. A ideia saiu do papel após um caso de assédio contra uma torcedora, ocorrido dentro do estádio do Coxa, em 2019. Foi o start para que Natalia e as mulheres coxas-brancas se unissem em prol de segurança, respeito e igualdade nos estádios de futebol.

Primeira mulher a falar sobre o Coritiba na internet, através do TV Couto, Natalia presenciou e passou na pele os conflitos em ser mulher em um meio tão machista como o do futebol. Foi aí que nasceu o Gurias do Couto, não para separar as mulheres dos torcedores homens, mas sim para unir as mulheres alviverdes, terem mais liberdade e, principalmente, prevalecer a união e segurança das torcedoras dentro do estádio Estádio Major Antônio Couto Pereira.

O grupo se destaca pela união e sororidade.

As Gurias do Couto se juntam em um lugar marcado todos os jogos e convidam muitas mulheres torcedoras do Coritiba a se unirem a elas. Atualmente, as torcedoras associadas passam de 6 mil, sempre se fazendo presente nos jogos e para provar, de uma vez por todas, que mulheres não precisam de companhias masculinas para explanar sua paixão pelo time de coração.

Gralhas da Vila: Unidas dentro e fora de campo

A união dentro e fora de campo é a marca registrada das Gralhas da Vila. O grupo foi criado no final de 2019 e, hoje, conta com mais de 50 mulheres espalhadas por todos os setores do Estádio Vila Capanema.

O grupo tem o intuito de promover a união entre as torcedoras do Paraná Clube, visando propagar a necessidade do respeito e da igualdade dentro do “mundo do futebol”, além de se posicionar e levantar causas humanitárias. Em uma conversa feita pelas gralhas da vila com algumas mulheres que frequentam o estádio, foram identificadas algumas torcedoras que, infelizmente, já presenciaram ou foram vítimas de algum tipo de assédio no estádio.

Caso ocorrido em 2019 fortaleceu as Gralhas da Vila

Em 2019, uma torcedora do Paraná Clube foi vítima de tentativa de abuso quando um motorista de aplicativo tentou beijá-la à força ao querer sair do veículo. Logo após o ocorrido, as Gralhas da Vila se uniram com a vítima, deram apoio, conversaram e convenceram a mesma a prestar queixa na polícia, denunciando o assediador que, em seguida, foi expulso do aplicativo.

Muito mais do que o apoio dado dentro do estádio, as meninas se uniram também fora dele, se colocando disponíveis para ajudar qualquer mulher que se sinta ameaçada ou insegura.

Time feminino do Paraná Clube

O futebol feminino está, finalmente, ganhando espaço a cada dia – seja regional ou mundialmente. Em 2019, a CBF deu um passo gigante ao incluir a obrigatoriedade dos times da série A do Brasileirão a terem uma equipe feminina adulta, uma categoria de base e que disputassem, no mínimo, um campeonato oficial.

Aos poucos, a “obrigação” está dando lugar ao “temos um time feminino de futebol, porque sim”. A valorização está acontecendo, mas ainda há passos muito largos e vagarosos e isto ocorre também com o Paraná Clube Feminino: as #GuriasdaVila.

Acompanhe o bate papo que tivemos com as Gralhas da Vila: Carolina Reis, Simone Rugilo, Giovana e a Gabrielle Bizinelli.

A união tem fortalecido o movimento feminino dentro e fora de quadra, mas ainda há muito o que ser cobrado, muito o que mudarmos para chegar um dia, em que a mulher se sinta livre o bastante para estar onde quiser.

Acompanhe o onde tem beleza no facebook e Instagram e até a próxima.

0 0 vote
Article Rating

Amanda Lima

Falarei com você sobre todo e qualquer assunto de beleza. A gente se vê por aqui.

guest
3 Comentários
Mais antigos
Mais novos Mais votados
Inline Feedbacks
View all comments
Meire Medeiros
Meire Medeiros
10 meses atrás

Excelente matéria e muito oportuna, as mulheres têm que se unir para ocuparem seus espaços! Parabéns!

Maria
Maria
10 meses atrás

Matéria sensacional!! É muito importante falar do movimento feminino no estádio

Paula
Paula
10 meses atrás

Muito feliz em saber que os estádios estão bem representados.